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Campylobacter

O Campylobacter spp. é uma bactéria GRAM negativa presente no trato gastrointestinal das aves e é conhecida por afetar os seres humanos.

Segurança alimentar

A importância da bactéria Campylobacter spp. na produção avícola está muito relacionada à campilobacteriose humana e ao papel das aves como vetores e reservatórios desta zoonose.

O custo anual da campilobacteriose para os sistemas de saúde pública, incluindo os prejuízos à saúde individual e produtividade, são estimados em:

  • mais de 2,4 bilhões de euros na UE;
  • 1,2 a 4 bilhões de dólares nos Estados Unidos.

O impacto da campilobacteriose em seres humanos é bem conhecido. A doença geralmente causa dores abdominais e diarreia que podem levar à internação hospitalar. Mas vale lembrar que ela também pode causar a morte e, em alguns casos, causar complicações graves, como a síndrome de Guillain-Barre, artrite reativa, bacteremia, doença intestinal inflamatória e síndrome do intestino irritável.

Estima-se que existam 9 milhões de casos de campilobacteriose por ano somente na União Europeia.

A infecção por Campylobacter jejuni é considerada uma das causas mais importantes de doenças humanas transmitidas por alimentos nos países desenvolvidos, com um número estimado de 2,5 milhões de casos por ano nos EUA (1.020 casos/100.000 pessoas/ano).

Nos EUA, a cada ano aproximadamente 100 pessoas morrem devido a infecções por Campylobacter spp., sendo que a maioria dos casos é reportada em crianças, idosos ou pacientes imunocomprometidos (Mead et al., 1999).

Portanto, é importante controlar este patógeno na produção avícola.

Figura 1: Tendência em casos reportados confirmados de campilobacteriose em seres humanos na UE/AEE, 2017.
Figura 1: Tendência em casos reportados confirmados de campilobacteriose em seres humanos na UE/AEE, 2017.

Ocorrência

As espécies de Campylobacter spp. fazem parte da microflora do trato digestivo de diversos animais selvagens e domésticos, incluindo suínos, bovinos e aves, sem causar nenhum sinal clínico. No entanto, cientistas de todo o mundo concordam que os produtos avícolas, incluindo a carne, são a principal fonte de campilobacteriose em seres humanos.

As espécies avícolas são consideradas vetores importantes da campilobacteriose em seres humanos. Por exemplo, o Campylobacter jejuni foi encontrado no intestino de 83 % dos frangos de corte amostrados em um mercado de frangos vivos na cidade de Nova York (Grant et al., 1980). Estudos epidemiológicos retrospectivos mostraram que a manipulação da carne de frango e seu consumo (principalmente crua ou mal cozida) estão fortemente relacionados a um maior risco de desenvolvimento de diarreia associada à infecção por Campylobacter em seres humanos (Harris et al., 1986).

De acordo com a Autoridade Europeia para a Segurança dos Alimentos (EFSA), em 2017, 37,4% das 13.445 amostras (individuais e lotes) de carne fresca de frangos de corte apresentaram resultados positivos para a presença de espécies de Campylobacter spp. No caso de perus, o número foi de 31,5% (em 1028 amostras individuais testadas para Campylobacter). A proporção de amostras positivas em outras aves de produção, diferentes de frangos de corte e perus, foi de 27,7% (em 1425 unidades de amostra).

 Considerando-se os problemas econômicos e de saúde associados à campilobacteriose, as autoridades governemantais de diversos países iniciaram negociações sobre a possibilidade de colocar em vigor medidas de controle obrigatórias para reduzir a contaminação por espécies de Campylobacter spp. na produção avícola.

É importante lembrar que Campylobacter spp. não é necessariamente uma bactéria comensal pois tem o potencial de causar doenças em aves: como diarreia e redução da eficiência alimentar. No Reino Unido, por exemplo, estimativas sugerem que os prejuízos para a indústria chegam a USD 29,16 a cada mil frangos de corte. O controle da situação na granja traz benefícios para os produtores, que não devem apenas manter-se em conformidade com os níveis de contaminação da carne que deixa a planta de processamento.

Figura 2. A infecção por Campylobacter (jejuni) na produção avícola é um problema de segurança alimentar. Fonte: Serviço de Pesquisa Agropecuária (ARS/USDA)
Figura 2. A infecção por Campylobacter (jejuni) na produção avícola é um problema de segurança alimentar. Fonte: Serviço de Pesquisa Agropecuária (ARS/USDA)

Por que é tão difícil controlar Campylobacter spp.?

As bactérias do gênero Campylobacter não se proliferam fora do trato digestivo dos animais de sangue quente. Elas são capazes de sobreviver por até algumas semanas nos alimentos, especialmente naqueles armazenados em baixas temperaturas. As espécies de Campylobacter spp. colonizam a mucosa do ceco e as criptas da cloaca nas aves infectadas. Elas também podem infectar o baço e o fígado, além de circular na corrente sanguínea.

Um único grama de fezes de frangos de corte infectados pode conter até 100 bilhões de bactérias do gênero Campylobacter. Mesmo esse nível de infecção pode não causar alterações na mucosa cecal. Na produção comercial, as aves são portadoras de altos níveis de Campylobacter spp. no intestino, como parte da sua microflora normal, sem apresentar quaisquer sinais de doença clínica. Além disso, não há alteração nas taxas de mortalidade ou conversão alimentar nos lotes de aves infectados.

Quando e como Campylobacter spp. infecta as aves

A prevalência de lotes de aves positivos para Campylobacter spp. é geralmente alta, embora ela varie dependendo da região, estação e tipo de produção (intensiva, free-range, orgânica, etc.). Em alguns casos, apenas 2% do lote de aves está contaminado, enquanto em outros a contaminação pode chegar a 100%.

 A infecção por Campylobacter spp. de aves com menos de três semanas de idade é rara. Os cientistas acreditam que isso está relacionado à presença de anticorpos maternos e ao rápido desenvolvimento do trato gastrointestinal e microbiota das aves. No entanto, após três semanas, mesmo se apenas uma ave do lote for infectada, a infecção pode ser disseminada para todo o lote em menos de quatro dias.

Fontes potenciais de contaminação em granjas avícolas
Fontes potenciais de contaminação em granjas avícolas

Os vetores para a transmissão de Campylobacter spp. incluem:

  • Fezes
  • Insetos
  • Água
  • Roedores
  • Seres humanos
  • Veículos
  • Equipamentos

Pesquisa

Isolados de Campylobacter jejuni obtidos de pacientes humanos foram usados para produzir diarreia experimental em frangos de corte jovens. A gavagem oral com C. jejuni (9 x 107 UFC) induziu diarreia em 88% dos frangos de corte com 3 dias de idade. Os autores determinaram que a diarreia pode ser induzida de forma consistente em pintinhos usando apenas 90 UFC (Ruiz-Palacios et al., 1981).

As aves com 2 a 3 dias de idade desafiadas com cepas de C. jejuni obtidas de humanos desenvolveram diarreia de forma consistente e o número de bactérias inoculadas foi amplificado em 3 a 4 logs em todo o intestino. Além disso, foi sugerida uma infecção sistêmica após o isolamento de Campylobacter do baço, fígado e sangue coletado do coração (Sanyal et al., 1984).

Ausência de uma vacina eficaz

O trabalho de desenvolvimento de vacinas contra a campilobacteriose para animais e seres humanos já está bem estabelecido. Na área humana, nenhuma vacina para prevenir doenças causadas por Campylobacter spp. foi aprovada pelas autoridades regulatórias, em nenhum país. O principal problema parece ser a insuficiência de conhecimentos sobre a patogênese e diversidade antigênica de Campylobacter jejuni, assim como sua associação com algumas síndromes pós-infecciosas.

Na avicultura, diversas estratégias foram desenvolvidas e verificadas experimentalmente na tentativa de criar uma vacina eficaz. No entanto, ainda não há uma vacina eficiente contra o Campylobacter spp..

Por que os antibióticos não são eficazes para controlar a infecção por Campylobacter spp. em aves?

As espécies de Campylobacter spp. não são reconhecidas como agentes patogênicos específicos em condições comercias. Portanto, o tratamento dos lotes de aves não é considerado. É necessário levar em consideração o risco zoonótico associado a C. jejuni e sua capacidade de desenvolver rapidamente resistência aos antibióticos. Na verdade, uma estratégia de controle com antibióticos não seria uma escolha prática para o o manejo de Campylobacter spp. em granjas comerciais.

As experiências nos países escandinavos apontam para uma abordagem preventiva.

Historicamente, os países escandinavos apresentam uma prevalência bem mais baixa de campilobacteriose em comparação aos demais países do mundo. A abordagem de controle de Campylobacter spp. nesses países tem como base a prevenção. Uma abordagem preventiva abrange toda a cadeia de produção de frangos de corte, da granja à mesa.

A prevenção da infecção por Campylobacter spp. tem como foco três fatores de risco principais:

  1. Prevalência no lote de aves
  2. Contaminação da carcaça
  3. Higiene na cozinha

Entre esses três, a prevalência no lote de aves é provavelmente o fator mais importante. A prevalência no lote de aves pode ser tratada de duas formas: 1) prevenir a infecção das aves por Campylobacter spp. e 2) reduzir a concentração de Campylobacter spp. no trato gastrointestinal das aves. A biossegurança desempenha um papel importante em ambos os tipos de prevenção.

Soluções

Ainda não há uma solução definitiva para o controle de Campylobacter spp. em lotes de aves. Porém, existem várias estratégias que podem reduzir sua incidência, melhorando a segurança alimentar e aumentando a rentabilidade do produtor.

Os produtores de frangos de corte devem utilizar diversas medidas para reduzir os níveis contaminação por Campylobacter spp. Uma abordagem mista começa com uma melhor biossegurança, mudanças das práticas de manejo, intervenções comprovadas na ração e na água de bebida usando aditivos e, por fim, medidas de intervenção durante o abate.

A Tabela 1 mostra uma visão geral das estratégias de manejo para combater o Campylobacter spp.. No entanto, esses métodos de manejo não são universalmente aplicáveis. Por exemplo, na UE existem restrições devido à disponibilidade de legislação ou às exigências do consumidor em relação ao tamanho da carcaça. Além das estratégias de manejo, também é possível usar aditivos nutricionais ou tratamentos da água, que podem reduzir ainda mais o nível de contaminação por Campylobacter spp. conforme ilustrado na Tabela 2. Desses, os probióticos parecem constituir a abordagem mais promissora para o controle de Campylobacter spp. através de intervenções nutricionais.

Tabela 1. Estratégias de manejo para combater a contaminação por Campylobacter spp. em frangos de corte. Fonte: BIOMIN

MedidaSucesso e situação de implementação
VacinaInexistente
Intervenções com temperaturas extremasAfirma reduzir a taxa de contaminação da carcaça em até 90%.
Não elimina o risco para os seres humanos.
Lavagem com cloroNão autorizado pela UE devido às preocupações a respeito dos resíduos cancerígenos.
Biossegurança rigorosaPode reduzir a taxa de contaminação das carcaças em 50% a 70%,
porém isso é difícil de obter em condições comerciais.
Não diminuir a densidade populacional A remoção do lote completo pode reduzir a contaminação em 80%.
Pressiona a produção e introduz desafios a curto prazo.
Abate aos 28 diasRedução drástica dos níveis de contaminação.
Impraticável devido às exigências do mercado.

Tabela 2. Estratégias nutricionais para combater a contaminação por Campylobacter spp. em frangos de corte. Fonte: BIOMIN

MedidaSucesso e situação de implementação
BacteriocinasAlguns experimentos científicos demonstrando a redução de contaminação dos cecos. São necessárias mais pesquisas.
BacteriófagosTendem a ter efeitos terapêuticos in vivo. Considerados para o tratamento de carcaças no abatedouro porém podem haver problemas no registro.
Ácidos orgânicosÉ necessário misturas de ácidos. Para obter bons resultados, é preciso reduzir o pH da água de bebida para 4,0 - 4,5. Diversos resultados já foram reportados.
Aditivos fitogênicos para raçõesAté o momento, os resultados in vitro não foram reproduzidos in vivo. São necessárias mais pesquisas.
ProbióticosDiversos experimentos mostram uma redução significativa da colonização por Campylobacter.
Provavelmente é o produto mais promissor para fins comerciais.

10 dicas para manter altos níveis de biossegurança e controlar a campilobacteriose

É importante destacar a importância da prevenção e do bom manejo da qualidade intestinal para controlar as infecções por Campylobacter spp. O objetivo destas 10 dicas é ajudá-lo a manter altos níveis de biossegurança nos galpões de aves para garantir a segurança alimentar e a rentabilidade.

Dica nº 1: Separe as áreas limpas e sujas da entrada do galpão com uma barreira física (mureta)

A construção de muretas representa um investimento pequeno, porém é muito comum nas granjas porque elas ajudam a impedir a contaminação cruzada por Campylobacter spp. spp. e outros agentes patogênicos.

  • Use calçados e macacões dedicados à área limpa durante todo o ciclo de crescimento.
  • Instale um pedilúvio dentro da área limpa e outro fora, diretamente na entrada do galpão.
  • Mantenha os calçados da área limpa permanentemente dentro do pedilúvio quando não estiverem em uso. Troque o conteúdo do pedilúvio a cada três dias.
  • Mantenha a área dentro da mureta sempre limpa usando uma vassoura e pá de uso exclusivo, que devem permanecer dentro da área limpa e não devem ser usadas em nenhum outro local.
Ilustração de uma mureta em um galpão de aves
Ilustração de uma mureta em um galpão de aves
Dica nº 2: Mantenha os equipamentos dentro do galpão durante todo o ciclo

Os utensílios como escadas, baldes, cercas de apanha e vassouras devem permanecer dentro do galpão durante todo o ciclo. Evite transportar esses utensílios de um galpão para outro para reduzir o risco de contaminação.

Dica nº 3: Higienize as mãos regularmente

Na entrada de cada aviário, instale uma pia com água morna, sabão, toalhas de papel e desinfetante para as mãos. Caso isso não seja possível, certifique-se de ter desinfetante para as mãos sempre à disposição, o que já pode ser de grande ajuda.

Dica nº 4: Use macacões descartáveis

Macacões descartáveis são uma forma econômica e prática de reduzir drasticamente a contaminação cruzada. Não deixe de descartá-los após cada visita ao galpão.

Dica nº 5: Realize o controle de roedores

A maioria dos produtores conhece o processo de controle de roedores. É importante abrir, limpar e instalar novas iscas nas ratoeiras regularmente. Lembre-se de registrar as ocorrências de roedores e as datas. Os fornecedores de rodenticidas podem oferecer mais informações e treinamentos quando necessário.

Dica nº 6: Garanta o fornecimento de água de boa qualidade

Independente da qualidade da água que abastece a granja, o sistema de bebedouros deve ser adequadamente desinfetado e mantido limpo para impedir que ele se torne um vetor de agentes patogênicos. Os bebedouros normalmente são lavados e desinfetados no início de cada ciclo produtivo, porém isso não leva em consideração as medidas de higiene que devem ser tomadas durante o período de crescimento. O cloro, o peróxido de hidrogênio e os acidificantes são comumente utilizados para garantir a sanitização adequada da água, controlar o grau de dureza e níveis de acidez da água, assim como prevenir a formação de biofilme.

Dica nº 7: Retire a ração de 8 a 12 horas antes do abate

O trato gastrointestinal de frangos de corte é esvaziado e achatado com leve descamação após 8 a 12 horas de jejum. A extensão da contaminação cruzada será reduzida consideravelmente se as aves forem submetidas a um período de retirada da ração antes do transporte para o abatedouro. As aves que são submetidas a um período de jejum adequado antes da entrada no abatedouro provavelmente transportam uma menor carga de agentes contaminantes nas penas e pés porque excretam uma menor quantidade de matéria fecal durante o transporte.

Além disso, se as aves estiverem mais limpas a água do tanque de escaldagem, que é em grande parte reciclada durante a operação, sofre menos contaminação. Não retire a ração com muita antecedência. Se o período de jejum for superior a 14 horas, haverá uma redução da integridade intestinal e um aumento da probabilidade de rupturas intestinais e subsequente aumento da contaminação.

Dica nº 8: Treine as equipes de apanha e transporte

As equipes de apanha constituem uma das principais fontes de contaminação cruzada por Campylobacter spp. entre as granjas. O estresse também torna as aves mais suscetíveis aos agentes patogênicos. Certifique-se de que todos os visitantes e funcionários sigam os protocolos de biossegurança e os procedimentos corretos de apanha e transporte para minimizar o estresse e doenças.

Dica nº 9: Discuta a estabulação e as práticas do abatedouro

A contaminação cruzada entre abatedouros e granjas é outra causa importante de infecção por Campylobacter spp. nas granjas. Os veículos de transporte contaminados podem visitar três ou quatro granjas por dia. As gaiolas de transporte devem ser adequadamente lavadas e desinfetadas após cada entrega. As aves podem ser mantidas em estabulação (p. ex., no pátio do abatedouro) ou até mesmo no veículo de transporte por até seis horas.

Nessas condições, as aves excretam uma quantidade considerável de microrganismos presentes no intestino, incluindo Campylobacter spp.. Fale regularmente com o gerente do abatedouro para saber se as etapas necessárias estão sendo seguidas e para assegurar que todos os envolvidos entendam seus papéis e responsabilidades.

Dica nº 10: Controle a contaminação no intestino das aves

Certos aditivos para rações que promovem a saúde e integridade intestinal podem ajudar a limitar o crescimento e a colonização por Campylobacter spp.. Busque probióticos que ajudem as bactérias benéficas: ao colonizar o intestino e consumir nutrientes, elas excluem competitivamente as bactérias nocivas ou indesejadas do trato gastrointestinal das aves antes do surgimento de problemas. Uma solução microbiana para um problema microbiano.

Soluções

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