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Doença do fígado gorduroso

Causas, sintomas, tratamento e prevenção da lipidose hepática

A doença do fígado gorduroso consiste na deposição e acúmulo de gordura no fígado. O fígado gorduroso é uma doença do período de transição, que é induzida por um balanço energético negativo em vacas leiteiras. Durante esse período, a gordura corporal é mobilizada e transferida para o fígado na forma de ácidos graxos não esterificados (AGNEs), que são metabolizados para produzir glicose ou, caso a oferta exceda a capacidade metabólica, o excesso é depositado na forma de triacilgliceróis.  

As vacas com níveis de ácidos graxos não esterificados (AGNEs) circulantes acima de 0,9 mMol, normalmente correm um alto risco de desenvolver cetose clínica e doença do fígado gorduroso. Os corpos cetônicos são subprodutos do metabolismo incompleto da gordura e estão relacionados aos níveis de AGNEs circulantes. Eles podem ser usados como indicadores do risco de desenvolvimento de cetose ou doença do fígado gorduroso.  

O acúmulo de gordura no fígado inibe a função metabólica e induz uma cascata negativa de eventos que geralmente resultam na morte dos animais. O tratamento clínico geralmente não tem sucesso, portanto a prevenção é a melhor solução. Considera-se que um escore de condição corporal entre 2,75 e 3,5 seja ideal para reduzir o risco de desenvolver cetose ou síndrome do fígado gorduroso.  

Causas da doença do fígado gorduroso 

A doença do fígado gorduroso (lipidose hepática) resulta da incapacidade do fígado de metabolizar a quantidade de gordura que chega para ser transformada em glicose. Estima-se que mais de 50% das vacas leiteiras sofram algum grau de acúmulo de gordura durante o período de transição (Jorritsma et al., 2001). Acredita-se que os prejuízos anuais para a indústria leiteira nos EUA causados pela doença do fígado gorduroso sejam da ordem de 60 milhões de dólares. (Shen 2018).  

O risco de ocorrência da doença do fígado gorduroso inicia com a mobilização das reservas de gordura do corpo em resposta à baixa ingestão de energia pelas vacas. Na semana anterior ao parto, ocorre uma redução da ingestão de matéria seca (IMS) e da ingestão associada de energia, o que induz a mobilização da gordura corporal para compensar o déficit energético. Após o parto, observa-se um aumento significativo da demanda de energia para sustentar a produção de leite. Uma vez que as vacas costumam demorar para voltar a ingerir matéria seca após o parto, há uma maior mobilização dos tecidos corporais para compensar o déficit energético.  

As vacas com um escore de condição corporal (ECC) mais alto mobilizam proporcionalmente mais gordura corporal, em comparação às que apresentam um menor ECC. Além disso, a mudança do ECC ou da taxa de mobilização de gorduras é considerada um fator importante no desenvolvimento do fígado gorduroso e pode ter uma ligação genética, sendo que algumas vacas estão propensas a uma rápida mobilização de gorduras (Jorritsma et al., 2001). A gordura corporal mobilizada circula na forma de ácidos graxos não esterificados (AGNEs), sendo que uma certa proporção é capturada pelo úbere e excretada com o leite. Porém, a maior parte é transferida para o fígado para ser metabolizada em glicose e usada na produção de leite.  

O fígado de uma vaca leiteira normalmente contém menos de 1% de gordura. No entanto, quando os níveis de gordura circulante excedem a capacidade do fígado de metabolizar os AGNEs, esse excesso é depositado no fígado na forma de triacilglicerol. O risco e a gravidade de desenvolver a síndrome do fígado gorduroso e os distúrbios metabólicos associados são classificados de acordo com a proporção de triacilglicerol depositado no fígado (Tabela 1).  

De modo geral, considera-se que níveis de AGNEs circulantes de 0,9 mMol ou mais indicam que as vacas correm risco de desenvolver cetose clínica e doença do fígado gorduroso. Considerando que a doença do fígado gorduroso e a cetose estão intimamente relacionadas, a detecção precoce de níveis elevados de corpos cetônicos pode ser uma indicação dos níveis de risco do rebanho. Os níveis de beta-hidroxibutirato (BHB) são comumente medidos no sangue ou no leite para avaliar o risco de cetose. Considera-se que níveis de BHB acima de 2,5 mMol indicam um risco de desenvolvimento da doença do fígado gorduroso em vacas (Eclinpath, 2019).   

Tabela 1. Classificações de fígado gorduroso em vacas leiteiras. Adaptado de Bobe et al., 2004

Classificação do fígadoTAG1
hepático (% peso líquido)
Cetonas urináriasIngestão de ração/produção de leiteEstado de saúde/
desempenho reprodutivo
Fígado
Normal< 1%0200Normal
Leve1 - 5%+0-Infiltração centrolobular de TAG
Moderada5 - 10%++0--Infiltração de TAG em todo o fígado
Grave> 10%+++------Aumentado, necrótico

1 TAG = triacilglicerol
2 Os símbolos +/- indicam associação positiva ou negativa, respectivamente; o número de símbolos indica a associação relativa. 0 indica ausência de associação

Tabela 1. Classificações de fígado gorduroso em vacas leiteiras. Adaptado de Bobe et al., 2004

Classificação do fígadoTAG1
hepático (% peso líquido)
Cetonas urináriasIngestão de ração/produção de leiteEstado de saúde/
desempenho reprodutivo
Fígado
Normal< 1%0200Normal
Leve1 - 5%+0-Infiltração centrolobular de TAG
Moderada5 - 10%++0--Infiltração de TAG em todo o fígado
Grave> 10%+++------Aumentado, necrótico

1 TAG = triacilglicerol
2 Os símbolos +/- indicam associação positiva ou negativa, respectivamente; o número de símbolos indica a associação relativa. 0 indica ausência de associação

Além do risco de acúmulo de gordura no fígado, a mobilização da gordura corporal é um processo anabólico que induz uma resposta inflamatória. O grau da resposta inflamatória está relacionado à extensão da mobilização de gorduras corporais. Considerando que há uma supressão normal do sistema imunológico próximo ao momento do parto, uma alta resposta inflamatória pode aumentar o risco das vacas de desenvolver outras doenças metabólicas secundárias no parto, como o aumento da contagem de células somáticas, ou mastite e metrite, ou cetose e doença do fígado gorduroso.  

Sintomas 

A ocorrência da doença do fígado gorduroso pode ser comparada à ocorrência de cetose, uma vez que ambas afetam diretamente a função hepática.  

Os sinais potenciais de síndrome do fígado gorduroso clínica ou subclínica incluem:  

  • Menor ingestão de matéria seca 
  • Perda rápida ou excessiva do ECC  
  • Baixa produção de leite  
  • Alta prevalência de outras doenças metabólicas no início da lactação, como mastite, retenção de placenta e febre do leite.  
     

Considerando que os sintomas da doença do fígado gorduroso são os mesmos da cetose, o monitoramento do rebanho quanto aos níveis transitórios de AGNEs no sangue ou níveis de BHB no leite ou sangue, pode ser usado para avaliar os possíveis riscos dentro do rebanho. Pesquisas recentes indicam que o fator de crescimento de fibroblastos 21 (FGF21) e a hemoglobina têm uma forte correlação com o desenvolvimento da doença do fígado gorduroso, porém ainda não há testes disponíveis para vacas (Shen et al., 2018). Na ausência do monitoramento regular do rebanho para AGNEs ou BHB, os produtores devem ficar atentos aos sinais visuais, como alto ECC no período pré-parto ou perda de peso rápida ou excessiva após o parto.  

Uma vez identificados os sintomas, é provável que os danos no fígado já tenham ocorrido e o impacto na lactação dependerá da gravidade. A análise post-mortem pode confirmar o diagnóstico, uma vez que o fígado de uma vaca com síndrome do fígado gorduroso se apresenta inflamado e com uma coloração alaranjada, enquanto o fígado sadio apresenta uma coloração roxo escura (Figura 1a,b)  

Diagnóstico post-mortem de um fígado gorduroso (esquerda) e um fígado sadio (direita). As fotos são cortesia de dpir.nt.gov.au
Figura 1. Diagnóstico post-mortem de um fígado gorduroso (esquerda) e um fígado sadio (direita).

Tratamento  

Atualmente, não há tratamentos disponíveis para a doença clínica do fígado gorduroso, porém as vacas podem se recuperar em casos leves. Em casos de recuperação, pode haver aumento do risco de desenvolvimento de outras doenças metabólicas relacionadas, como retardo da fertilidade, baixa produção de leite ou piora da saúde do úbere, o que pode potencialmente causar a remoção precoce do rebanho.  

O desafio da maioria dos produtores e veterinários é identificar as causas fundamentais que levam à remoção precoce do rebanho. Mesmo nos casos leves de síndrome do fígado gorduroso, os danos no fígado aumentam o estresse celular e diminuem a função metabólica.  

Prevenção da doença do fígado gorduroso 

10 dicas para prevenir a doença do fígado gorduroso: 

  1. Monitore sistematicamente os escores de condição corporal 
  2. Agrupe as novilhas de acordo com as necessidades nutricionais 
  3. Mantenha um escore de condição corporal ideal durante o período seco 
  4. Estimule a ingestão de matéria seca 
  5. Forneça dietas altamente palatáveis 
  6. Minimize o uso de gorduras na ração 
  7. Mantenha a oferta de fibras efetivas 
  8. Use óleos essenciais/aditivos fitogênicos para rações –, Digestarom® Bovinos de Leite e Levabon®
  9. Use suplementos de levedura autolisada –Digestarom® Bovinos de Leite e Levabon®;
  10. Forneça colina, metionina ou niacina protegidas durante o período pós-parto 

Uma condição corporal excessiva no momento do parto resulta em uma maior taxa e maior extensão de mobilização de gorduras corporais. As novilhas normalmente correm maior risco devido ao ganho excessivo de peso corporal antes do parto, o que destaca a importância do monitoramento sistemático do ECC e do agrupamento das novilhas de acordo com as necessidades nutricionais. As vacas multíparas não estão isentas, uma vez que períodos prolongados de lactação tendem a resultar em ECC excessivo e em um maior potencial para chegar ao fim da lactação com um alto ECC.  

Deve-se manter um ECC ideal durante o período seco, pois a tentativa de corrigi-lo durante esse curto período pode afetar o desenvolvimento dos bezerros e potencialmente causar partos distócicos.  

A alta demanda por glicose para sustentar a produção inicial de leite geralmente é maior do que a ingestão de nutrientes pelas vacas e a gordura corporal é mobilizada para minimizar esse déficit. A meta mais importante para os produtores é estimular a IMS para reduzir o estresse sobre as reservas corporais mobilizadas. As dietas devem ser altamente palatáveis, com alto potencial glicogênico a partir de uma combinação de amido e açúcares, e deve-se minimizar o uso de gorduras.

Não se recomenda o uso de gorduras na ração, uma vez que elas aumentam o estresse celular hepático pela adição de um pool de lipídios que deverão ser metabolizados pelo fígado. É preciso manter os níveis de fibras efetivas para aumentar a palatabilidade e também para estimular a motilidade do rúmen e reduzir o risco de desenvolvimento de acidose ruminal subaguda. Os novos aditivos para rações, que contêm uma combinação de óleos essenciais e outros metabólitos secundários de plantas, são capazes de estimular a motilidade do rúmen e a IMS, além de tornar a população microbiana ruminal mais eficiente do ponto de vista energético, aumentando assim a disponibilidade de energia para os animais.

A alta capacidade antioxidante dos óleos essenciais também promove a integridade intestinal para reduzir o risco de ruptura das junções de oclusão, que causa a síndrome do intestino permeável. Os aditivos à base de leveduras, especialmente as leveduras autolisadas, agem como um probiótico para estimular a digestão de fibras, permitindo aproveitar o máximo de nutrientes e o mais alto potencial de glicose da dieta. A alta concentração e a acessibilidade dos mananoligossacarídeos (MOS) e beta-glucanos na levedura autolisada aumentam sua capacidade de adsorção de patógenos e promoção da resposta imunológica celular, ajudando a reduzir as reações inflamatórias induzidas pelas flutuações dietéticas ou metabólicas, que geralmente são observadas durante o período de transição e durante o ciclo de lactação.

Outros suplementos dietéticos, como a colina, a metionina e a niacina protegidas podem ser fornecidos no período pós-parto para melhorar a mobilização de gorduras do fígado e reduzir o risco de acúmulo excessivo de gordura no órgão. A consequência da mobilização de gorduras no fígado é que a maior parte dessa energia potencial é excretada no leite e o restante volta para o fígado para ser metabolizado em glicose ou depositado novamente no órgão. Portanto, o foco é aumentar a IMS de uma dieta glicogênica, com conteúdo mínimo de gordura. 

Referências

Bobe, G. Young, J.W., Beitz, D.C. 2004. Invited Review: Pathology, etiology, prevention and treatment of fatty liver in dairy cows. J. Dairy Sci. 87:3105-3124 

ECLINPATH, Cornell University College of Veterinary Medicine, eclinpath.com/chemistry/energy-metabolism/%ce%b2-hydroxybutyrate/
Accessed 05.08.2019 

Jorritsma, R., Jorritsma, H., Schukken, Y.H., Bartlett, P.C., Wensing, Th., Wentink, G.H. 2001.
Prevalence and indicators of post partum fatty infiltration of the liver in nine commercial dairy herds in The Netherlands. Liv. Prod. Sci. 68:53-60. 

Mulligan, F.J., and Doherty, M.L. 2008. Production diseases of the transition cow. The Vet. J. 176:3-9.  

Shen, Y., Chen, L., Yang, W., Wang, W. 2018. Exploration of serum sensitive biomarkers of fatty liver in dairy cows. Sci. Reports. 8:13574-13571. 

Soluções

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