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Holstein Dairy Cow | Photo: Scott Bauer / Agricultural Research Service

Cetose em bovinos

Sintomas, principais fatores e 3 estratégias preventivas para evitar a cetose, que é um distúrbio metabólico do período de transição

Em vacas leiteiras, a cetose está relacionada à formação de corpos cetônicos (ou seja, acetona, acetoacetato e beta-hidroxibutirato, BHB) e é uma medida da capacidade do fígado de converter os ácidos graxos não esterificados (AGNEs) circulantes em glicose através do processo de gliconeogênese.  

A cetose é um distúrbio metabólico do período de transição, com uma zona de risco que varia de uma semana antes do parto até 30 dias após o parto. A cetose é marcada por níveis elevados de corpos cetônicos medidos no sangue ou no leite, indicando uma sobrecarga dos processos metabólicos hepáticos, o que causa um estresse celular e lesão hepática, reduzindo a função do órgão.  

O beta-hidroxibutirato é o principal corpo cetônico produzido pelo fígado e a maioria das técnicas de monitoramento em vacas tem este metabólito como foco. A cetose clínica é definida como um nível de BHB de ≥ 3,0 mmol/l (31,2 mg/dl) e afeta geralmente até 15% das vacas. A cetose subclínica inicia com ≥ 1,2 mmol/l (12,4 mg/dl) e apresenta uma prevalência de mais de 40% nas vacas de rebanhos comerciais modernos. 

O nível de corpos cetônicos presentes no sangue ou no leite também está relacionado ao maior risco de diversos outros distúrbios metabólicos, inclusive a metrite, amastite e o deslocamento do abomaso à esquerda, que contribuem para a redução da produção de leite e pior desempenho reprodutivo.  

Além disso, a cetose clínica precede a síndrome do fígado gorduroso, onde os lipídios circulantes não metabolizados são depositados no fígado, prejudicando ainda mais a capacidade metabólica e aumentando o risco de outros distúrbios metabólicos. Diversas medidas de manejo e nutrição podem ser tomadas para reduzir a ocorrência e o impacto da cetose subclínica e clínica em bovinos. O manejo preventivo tem como foco o escore de condição corporal (ECC) antes do parto e o aumento da ingestão de matéria seca (IMS) após o parto. 

Zonas de risco para o desenvolvimento de cetose

Pré-parto 

A cetose é, essencialmente, o resultado da incapacidade do fígado de acompanhar a demanda de glicose durante o início da lactação. No entanto, o risco de desenvolvimento de cetose começa no período pré-parto (close-up) – geralmente uma semana antes do parto. Nesse momento, geralmente há uma rápida diminuição da IMS, o que limita a ingestão de nutrientes.  

A menor ingestão de nutrientes coincide com o período de maior demanda para o desenvolvimento do feto, gerando um estresse adicional sobre a glicose disponível. A situação cria o chamado balanço energético negativo (BEN), onde a demanda excede a oferta disponível. 

Um estado de BEN induz a mobilização das reservas energéticas da vaca para compensar o déficit de ingestão de nutrientes, predispondo o animal a uma condição catabólica inflamatória. Durante o período pré-parto, é possível monitorar o nível de risco de cetose por meio dos BHB e AGNEs no sangue. Antes do parto, ocorre também uma supressão do sistema imunológico, o que torna a vaca mais suscetível a patógenos e outros distúrbios metabólicos.

    Pós-parto

    Nas primeiras semanas após o parto, a demanda de nutrientes para a produção de leite aumenta rapidamente, assim como do risco de desenvolvimento de cetose. A produção de leite depende do suprimento de glicose, o qual depende do metabolismo hepático. Para facilitar a reserva de glicose para a produção de leite, ocorre uma redução da produção de insulina junto com um aumento da resistência à insulina em alguns tecidos (Ospina et al., 2013).  

    Embora no período pós-parto as vacas sejam alimentadas com rações altamente palatáveis e contendo altas concentrações de nutrientes, a IMS geralmente não é suficiente para atender às demandas para a produção de leite. Além disso, a microflora ruminal precisa de um tempo para se adaptar à nova dieta e durante esse período a fermentação ruminal e a digestão de alimentos são reduzidas.  

    Esse desequilíbrio da função ruminal torna as vacas mais vulneráveis à acidose ruminal subaguda (SARA). A gravidade e a duração desse período de BEN têm um impacto sobre o grau de mobilização das reservas corporais e sobre o teor de AGNEs no fígado. A degradação catabólica dos tecidos contribui ainda mais para a condição pró-inflamatória da vaca no período pós-parto, que é um momento de maior supressão do sistema imunológico (Esposito et al., 2014).  

    Essa zona de risco de BEN persiste até o retorno do apetite, o aumento da IMS e a normalização dos níveis de glicose. O monitoramento dos níveis de AGNEs no sangue ou dos níveis de BHB no sangue e leite no início da lactação pode proporcionar uma avaliação do risco e gravidade da cetose, assim como uma indicação da probabilidade de desenvolvimento de outros distúrbios metabólicos secundários.  

    O monitoramento da prevalência de cetose é uma ferramenta de manejo importante devido à sua relação próxima com outros distúrbios metabólicos. O ECC pré-parto continua sendo o sinal mais claro do risco de desenvolvimento de cetose, porém há outras ferramentas de monitoramento capazes de identificar possíveis problemas.  

      Outros fatores que devem ser monitorados incluem: 

      • Rápida redução do ECC após o parto
      • IMS após o parto
      • Relação gordura-proteína no leite 
      • Taxas de descarte no início da lactação 
      • Baixas taxas de concepção  
      • Média anormalmente alta de DIM no rebanho (dias em lactação, DIM na sigla em inglês)

      Fatores que contribuem para o desenvolvimento de cetose

      Condição corporal  

      A principal causa de predisposição para o desenvolvimento da cetose é a condição corporal excessiva antes do parto. Durante os períodos de BEN, a mobilização dos tecidos acontece principalmente a partir das reservas de gordura, porém também há mobilização a partir dos tecidos musculares. A proporção de tecido adiposo ou muscular depende do ECC das vacas, sendo que aquelas com um ECC mais alto mobilizam mais rapidamente uma maior proporção de gordura corporal (NRC, 2001). Por essa razão, as vacas com escore de condição corporal um pouco abaixo do ideal correm menor risco de desenvolver cetose do que as que apresentam escores mais altos. 

      Para evitar o atraso do crescimento do feto ou o risco de parto distócico, as vacas devem entrar no período seco com um ECC próximo ao ideal para o parto. Um ECC de 4 ou mais em vacas ou novilhas entrando no período de pós-secagem (far-off), ou 60 dias antes do parto, é indicativo de problemas de manejo no início do ciclo de produção. Para as vacas, a presença de um alto ECC na secagem indica problemas reprodutivos, que podem estar relacionados a distúrbios metabólicos durante a fase de transição anterior.

      Quando há atraso na reprodução, as vacas normalmente permanecem por mais tempo em um grupo recebendo uma dieta de alto valor energético, em um momento em que a IMS pode ser superior à produção de leite. Da mesma forma, o ECC das novilhas após a reprodução deve ser cuidadosamente monitorado para garantir o crescimento magro estável sem o acúmulo excessivo de gordura corporal.  

      O ECC ideal para uma vaca Holstein ao parto foi revisado e a meta foi reduzida para 3,5. Para uma vaca com 650 kg ao parto, uma unidade de ECC representa 84 kg de peso corporal, ou a equivalência de 564 kg de 4% de leite corrigido pela energia (NRC 2001). Para reduzir o risco de cetose ou outros distúrbios metabólicos, os produtores devem limitar a perda de ECC para no máximo 0,5 a 0,75 unidades durante os primeiros 60 a 80 dias após o parto. O foco principal é promover uma maior IMS pré e pós-parto.  

      Baixa ingestão de ração

      Na semana que antecede o parto, geralmente há uma grande redução da IMS, o que induz a mobilização de gorduras e um aumento correspondente nos AGNEs circulantes para atender à demanda de energia do feto. A mobilização dos tecidos é um evento anabólico, o que significa que há um aumento da resposta inflamatória em um período onde ocorre imunossupressão das vacas (Ortega e Fernández-Real, 2013). Evitar uma baixa IMS através do manejo da dieta é fundamental para prevenir a cetose subclínica e a consequente doença metabólica. 

      Após o parto, as vacas que ingerem menos alimento do que as demais do mesmo grupo correm um risco muito maior de desenvolver cetose do que as que apresentam um comportamento alimentar mais agressivo. A baixa IMS agrava ainda mais os efeitos do balanço energético negativo (BEN) no início da lactação, aumentando a pressão sobre as reservas corporais. Além disso, as vacas com baixa IMS costumam ser mais seletivas, aumentando o risco de desenvolver SARA. Diversas medidas de manejo podem ser adotadas para incentivar uma maior IMS no início da lactação, com o objetivo de aliviar o estresse metabólico hepático e reduzir o risco de cetose subclínica e clínica.

      Doenças metabólicas associadas à cetose

      Deslocamento do abomaso 

      O crescimento do feto durante a última fase da gestação costuma limitar o volume do rúmen, o que também pode contribuir para a redução da ingestão antes do parto. Após o parto, o rúmen pode voltar ao volume normal, porém é durante esse período que a vaca está mais suscetível a uma condição chamada deslocamento do abomaso à esquerda, onde o abomaso pode literalmente mover-se dentro da cavidade abdominal, bloqueando o fluxo de nutrientes.  

      A ingestão de uma alta proporção de partículas pequenas após o parto não contribui de forma adequada para o enchimento do rúmen e estratificação das fibras, aumentando o risco de deslocamento do abomaso à esquerda. A probabilidade de vacas na faixa de risco de cetose subclínica (nível de BHB entre 1,2 mmol e 3 mmol) de desenvolver deslocamento do abomaso à esquerda é oito vezes maior do que a das que se apresentam abaixo do valor limítrofe (Suthar et al., 2013). O incentivo a uma maior IMS após o parto reduz muito o risco de deslocamento do abomaso à esquerda.  

      Claudicação 

      A claudicação relacionada à cetose subclínica normalmente é identificada somente mais tarde durante a lactação. No entanto, ela tem início com os distúrbios metabólicos associados durante o período de transição. As vacas com claudicação clínica aos 70 dias em lactação têm 25% menos chance de conceber do que as vacas não claudicantes (Bicalho et al., 2007). Quando a cetose subclínica prejudica o comportamento de alimentação, levando a uma maior mobilização dos tecidos e/ou condições de SARA, pode haver lesões na camada epitelial do intestino delgado, resultando em uma condição conhecida como síndrome do intestino permeável.

      Na síndrome do intestino permeável, existe uma ruptura das junções de oclusão que agem como uma barreira de proteção entre as células no intestino delgado. Com o aumento da permeabilidade do intestino delgado, pequenas partículas, bactérias patogênicas e proteínas inflamatórias alcançam a circulação sanguínea. As histaminas, em particular, estão relacionadas às inflamações do casco, levando ao enfraquecimento da estrutura do casco e à infiltração bacteriana.  

      Além disso, também existe uma relação entre as perdas excessivas de ECC e a redução da camada adiposa do coxim digital do casco. Isso reduz a capacidade de amortecimento do tecido mole do casco, tornando a vaca mais suscetível à abrasão pelo solo e ao desenvolvimento de úlceras da sola e doença da linha branca (Bicalho et al., 2009). A probabilidade de vacas na faixa de risco de cetose subclínica (nível de BHB entre 1,2 mmol e 3 mmol) de desenvolver claudicação é cinco vezes maior do que a das que se apresentam abaixo do valor limítrofe (Suthar et al., 2013). 

      Metrite 

      A metrite é uma inflamação do útero que pode ser causada por diversos fatores, como a distocia, hipocalcemia, cetose, contaminação bacteriana durante o parto ou contrações uterinas insuficientes/expulsão incompleta do conteúdo uterino após o parto.  

      A imunossupressão no parto, assim como o desafio de cetose subclínica, aumenta a probabilidade de desenvolvimento de metrite. As vacas na faixa de risco de cetose subclínica (nível de BHB entre 1,2 mmol e 3 mmol) apresentam um risco duas vezes maior de desenvolver metrite, em comparação às que apresentam níveis abaixo do valor limítrofe (Suthar et al., 2013). 

      Baixa produção de leite 

      A produção de leite depende da produção de lactose, que está diretamente correlacionada com a função hepática e os níveis de glicose. A menor produção de glicose no início da lactação prejudica a maturação das células secretoras de leite. O potencial de produção de leite é comprometido mesmo abaixo do valor limítrofe para cetose subclínica (BHB > 1,2 mmol).

      O impacto da cetose na produção de leite depende da sua gravidade. As estimativas conservadoras a partir de pesquisas sugerem que as perdas podem variar entre 1 a 3 kg, o que pode ultrapassar uma perda de produção de 350 kg durante a lactação (Ospina et al., 2010). 

      Baixa fertilidade 

      Um prazo voluntário de espera de 60 dias antes do primeiro serviço geralmente é suficiente, porém se os animais apresentarem cetose subclínica ou clínica, o período de BEN associado retardará a ovulação ou resultará em baixas taxas de concepção.  

      É difícil determinar o impacto exato da cetose subclínica ou clínica na fertilidade devido à prevalência e efeitos agravantes de outros distúrbios metabólicos. No caso da cetose subclínica, acredita-se que haja um aumento de 0,8 nas taxas de concepção (Rutherford et al., 2016), com uma média de 103 dias em lactação (DIM, do termo em inglês days in milk) na concepção (McArt et al., 2012). 

      Diagnóstico d cetose 

      Sintomas pré-parto 

      Os testes metabólicos indicam que níveis de AGNEs circulantes acima de 0,30 mEq/L, ou níveis de BHB de 0,6 a 0,8 mmol/L (≥ 6,25 mg/dL), antes do parto aumentam significativamente os riscos de desenvolvimento de metrite, retenção de placenta e deslocamento do abomaso, além da cetose clínica (Ospina et al., 2013). Se mais de 15% do rebanho, ou seja, duas em cada 12 vacas, apresentar altos níveis de AGNEs ou BHB antes do parto, isso indica um risco significativo de desenvolvimento de doenças metabólicas no período pós-parto e é um sinal de alerta para intervenções de manejo. 

      Sintomas pós-parto 

      Assim como no período pré-parto, os níveis de AGNEs ou BHB circulantes podem ser usados para avaliar o risco relativo de desenvolvimento de uma série de doenças metabólicas, inclusive a cetose clínica. Embora correlacionados, os AGNEs circulantes são melhores indicadores do risco de distúrbios metabólicos do que o BHB no sangue ou leite.  

      Os valores de corte para o risco de AGNEs das amostras coletadas dentro dos primeiros 14 dias são 0,6 a 0,7 mEq/L. Atualmente, não há métodos de análise de AGNEs no campo e as análises laboratoriais normalmente demoram alguns dias. Por isso, o monitoramento de rotina dos AGNEs no rebanho pode ser mais prático para a maioria dos produtores.  

      Os testes de campo para medir os níveis de BHB no sangue ou no leite estão disponíveis e são mais adequados para a identificação imediata das vacas em risco no início da lactação. Os níveis de corte empíricos para BHB são ≥ 1,2 mmol/l (12,4 mg/dl) para cetose subclínica e ≥ 3,0 mmol/l (31,2 mg/d) para cetose clínica. É importante observar que os resultados individuais dependem de cada animal e que as lesões hepáticas podem ocorrer abaixo desses limiares.  

      Para avaliar corretamente os fatores de risco nos indivíduos, os testes de cetose devem ser realizados pelo menos duas vezes entre 3 e 14 dias em lactação (Ospina et al., 2013). Alternativamente, pode-se monitorar o rebanho. Neste caso, se uma em cada 12 vacas no início da lactação apresentar resultado acima do valor de corte de 1,2 mmol/L, há indícios de prevalência de cetose no rebanho (Oetzel, 2004). 

      Sinais visuais 

      Embora os testes de rotina no rebanho e a medição sistemática das vacas individuais sejam a forma mais precisa de avaliar a prevalência de cetose na granja, diversos sinais visuais podem indicar um desafio subjacente de cetose.  

      A perda rápida de ECC após o parto é geralmente um forte indício de cetose. O ideal é que as vacas percam apenas 0,5 a 0,75 do ECC ou, aproximadamente, 40-65 kg de peso corporal. Novas tecnologias usando câmeras 3D estão disponíveis para ajudar a monitorar o ECC, porém a maioria dos produtores deve realizar a avaliação visual do grupo em início de lactação.  A baixa IMS precisa ser acompanhada da avaliação visual do enchimento do rúmen das vacas quando vistas de costas.  

      Uma vaca com bom apetite apresenta um rúmen levemente sobressalente no lado esquerdo. Uma vaca que se alimenta de forma insuficiente por mais de um dia apresenta uma barriga relativamente plana. Um outro sinal de vacas com menor ingestão é a demora para chegar aos comedouros ou a necessidade de ser empurradas no momento da ordenha.

      Como prevenir a cetose em bovinos 

      Os produtores podem adotar diversas medidas para prevenir a cetose em bovinos, entre elas: 

      • Incentivar uma maior ingestão de matéria seca 
      • Usar um tratamento profilático 
      • Usar aditivos para rações 
         

      Incentivar uma maior IMS 

      O incentivo a uma maior IMS é a forma mais eficaz de prevenção da cetose. A maior IMS permite uma ingestão semelhante de energia, em uma menor densidade energética, o que permite que os níveis necessários de fibras efetivas mantenham a função ruminal e os processos metabólicos. Comparativamente, o aumento da densidade energética geralmente acontece à custa das fibras efetivas em troca de um conteúdo maior de carboidratos solúveis ou gorduras, aumentando o risco de distúrbios ruminais e condições de SARA, o que geralmente reduz ainda mais a IMS. A importância da IMS para um período de transição mais tranquilo não começa no parto, uma vez que ela já é uma prioridade no período pré-parto.

      Tratamento profilático 

      O monitoramento contínuo e a rápida resposta à cetose subclínica tornam o tratamento profilático com propilenoglicol uma boa estratégia para reduzir os casos de cetose clínica. O conceito envolve oferecer uma quantidade de “choque” de glicerol facilmente metabolizável, que aumentará de forma suficiente os níveis de insulina circulante para reduzir a mobilização de gordura corporal e a pressão metabólica no fígado.  

      Os tratamentos são feitos diariamente até a resolução da cetose subclínica. No entanto, a zona de risco relativamente alta para o desenvolvimento de cetose subclínica torna essas práticas de tratamento repetido muito trabalhosas. Alternativamente, o tratamento com propilenoglicol é aplicado com frequência já aos primeiros sintomas de cetose clínica. Nesse estágio, já ocorreram danos no fígado e o risco de desenvolvimento de distúrbios metabólicos secundários aumenta significativamente. 

      No caso de cetose clínica, a glicose ou derivados de glicose podem ser administrados por via intravenosa. A maioria das vacas responde ao tratamento intravenoso, porém provavelmente já haverá danos no fígado e o desempenho da lactação estará comprometido. 

      Aditivos para rações 

      Os aditivos para rações que incentivam uma maior IMS ajudam a reduzir os casos de cetose subclínica. Os suplementos de leveduras são administrados com frequência em rações de bovinos de leite devido aos seus efeitos gerais de melhora da capacidade de tamponamento do rúmen e digestão dos alimentos. Essa ação estabiliza o pH do rúmen e a microbiota, o que incentiva a maior mobilidade das vacas e mais tempo no comedouro.

      A melhor digestão dos alimentos aumenta o fluxo de ácidos graxos voláteis disponíveis para a produção de glicose. Os produtores que usam dietas com maior teor de energia e ricas em amido para incentivar uma maior produção de ácido propiônico e, portanto, maiores níveis de glicose, podem usar ionóforos (quando autorizados) para mitigar a produção de ácido láctico. No entanto, essas dietas costumam reduzir a ruminação e a IMS. Não se recomenda aumentar a densidade energética usando gordura na ração, uma vez que ela aumenta a carga metabólica hepática, aumentando a probabilidade de desenvolvimento de cetose e síndrome do fígado gorduroso.  

      Para aliviar a deposição excessiva de gordura no fígado, a colina e a metionina podem ser adicionadas à ração para ajudar a mobilizar a gordura acumulada no fígado e excretá-la no leite. O uso de metabólitos secundários de plantas, ou aditivos fitogênicos para rações, como Digestarom® Bovinos de Leite, é uma forma mais natural de incentivar uma maior ingestão, pois estimula a ruminação e a duração da mastigação, o que aumenta a absorção dos ácidos graxos voláteis ruminais e o tamponamento do rúmen contra as condições de SARA. 

      Manejo dos comedouros

      Em muitos casos, o espaço nos comedouros não é adequado, o alimento não está facilmente disponível ou o comportamento seletivo pode prejudicar o equilíbrio da ingestão de nutrientes. O manejo do comedouro como uma medida preventiva é importante, pois as vacas são animais sociais e preferem atividades em grupo. O manejo do comedouro em vacas secas normalmente não recebe a devida atenção, uma vez que elas não são consideradas animais produtivos. Porém, elas também precisam de espaço adequado nos comedouros para reduzir o estresse social e manter os padrões regulares de alimentação.  

      Isso é ainda mais importante no grupo pré-parto, onde se deve aplicar a regra do "toque da barriga". Isso significa que deve haver espaço suficiente nos comedouros para que todas as vacas se alimentem ao mesmo tempo, sem que precisem se tocar. Isso reduz o estresse social no grupo e ajuda a manter os níveis de IMS.  

      O frescor da ração também pode ser um fator. Em alguns casos, a ração rejeitada pelos grupos de alta produção é misturada à forragem e oferecida no dia seguinte às vacas secas. Essas práticas causam uma oferta inconsistente de nutrientes e o risco de crescimento de micotoxinas, que podem influenciar os padrões de alimentação e o risco de distúrbios metabólicos. 

      Após o parto, é fundamental que as vacas tenham amplo acesso à ração fresca para incentivar a IMS. Isso inclui espaço suficiente nos comedouros, assim como a oferta constante de ração fresca. O espaço adequado nas baias de início de lactação permite que os animais que não se sentem dispostos se afastem daqueles que apresentam comportamento mais dominante, sem que haja comprometimento do padrão de alimentação. 

      A oferta frequente de ração e a aproximação do alimento mantêm o interesse das vacas pela ração, reduzem o risco de comportamento seletivo e incentivam os padrões regulares de alimentação. Sem a oferta frequente de ração e a aproximação do alimento, as vacas mais vulneráveis podem ingerir menos alimentos e têm uma maior chance de desnutrição, prolongando o período de BEN e aumentando a suscetibilidade a distúrbios metabólicos, como a cetose subclínica e clínica.   

      Além da distribuição do espaço disponível para os animais, o comportamento seletivo é um problema comum no manejo dos comedouros e pode ocorrer em qualquer estágio da produção. Enquanto as vacas determinam a extensão do comportamento seletivo, o operador do vagão de TMR é quem determina quão facilmente as vacas serão capazes de selecionar a TMR. Em relação à cetose, a maioria das dietas de início de lactação são formuladas com um teor mínimo de fibras efetivas para maximizar a densidade nutricional. No entanto, as vacas também apresentam uma tendência ao comportamento seletivo que pode causar condições de SARA, o que reduz ainda mais a IMS e aumenta o risco de desenvolvimento de cetose subclínica ou clínica.  

      A maior parte do comportamento seletivo envolve a recusa de fibras longas. As vacas são capazes de evitar a silagem úmida que se encontra "emboladas", os pedaços maiores de talos e espigas de milho ou a ração peletizada. Os problemas relacionados ao comportamento seletivo geralmente podem ser corrigidos com técnicas adequadas de preparo da ração. Uma forma eficaz de monitorar o preparo da TMR e o comportamento seletivo dos animais é seguir as recomendações das diretrizes do Penn State Particle Separator. A análise frequente da TMR garante uma maior consistência no preparo da dieta por diferentes operadores, além de ajudar a reduzir a variação diária de ingestão de alimento pelas vacas. 

      Estresse social 

      É fundamental lembrar da importância do impacto negativo da superpopulação no comedouro e nas áreas de repouso. Nas semanas após o parto, as vacas geralmente são afetadas por um certo grau de inflamação, o que reduz o apetite. Essas vacas costumam ser as últimas a chegar aos comedouros e são empurradas por vacas mais dominantes e que apresentam melhores condições físicas. Consequentemente, seus padrões de alimentação se tornam irregulares e podem causar comportamentos agressivos, como chifradas, ou ingestão de grandes quantidades de grãos/melaço, o que aumenta o risco de SARA e cetose subclínica. 

      A maioria dos produtores separa as vacas em início de lactação do grupo em lactação durante os primeiros 21 a 30 dias. Isto permite uma maior atenção e intervenções de manejo para minimizar o risco de distúrbios metabólicos. A separação posterior dos grupos em lactação em primíparas e multíparas ajuda a gerenciar de forma mais eficaz as necessidades nutricionais das vacas.  

      Esta é uma boa prática para mitigar o estresse, uma vez que as vacas multíparas são maiores e mais dominantes, o que pode deixar as vacas primíparas mais vulneráveis nas disputas em interações sociais e suscetíveis a um período prolongado de BEN. Quando o espaço permitir, a separação por número de partos deve começar na parição, pois as vacas primíparas são mais suscetíveis a distúrbios metabólicos e o risco de descarte precoce é maior.    

      Claudicação 

      A claudicação afeta o conforto da vaca, portanto seus efeitos durante o período seco podem continuar até o início da lactação. Mesmo uma claudicação leve pode aumentar o tempo de decúbito do animal e prejudicar os padrões de alimentação. Isso tem um efeito direto sobre a IMS diária e o consumo de energia, aumentando a pressão sobre as reservas de gordura corporal no início da lactação e induzindo a cetose subclínica e clínica.  

      A ocorrência de claudicação no início da lactação pode ter um efeito prolongado no BEN e no ECC das vacas. Os cascos devem ser aparados e examinados para minimizar os riscos de problemas de mobilidade durante a fase de transição.   

      Hipocalcemia 

      De maneira geral, a hipocalcemia, ou febre do leite, ocorre logo após o parto, sendo que 25% das vacas primíparas e até 50% das multíparas sofrem de condições subclínicas (Reinhardt et al., 2011). Os baixos níveis de cálcio circulante podem prejudicar a contração muscular, incluindo a motilidade ruminal.  

      Quando há comprometimento da motilidade ruminal, há uma redução da absorção de ácidos graxos voláteis a partir da fermentação dos alimentos, o que limita o potencial de formação de glicose. A baixa concentração de glicose circulante afeta os níveis de insulina, resultando no aumento da mobilização de gorduras e elevando o risco de cetose ou síndrome do fígado gorduroso.  

      Referências


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      Soluções

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